domingo, 5 de dezembro de 2021 08:06

Sala de aula e deficiência: o estudante Matheus aprende, ensina e inspira professores e colegas de turma na EREM Jornalista Trajano Chacon

O jovem tem síndrome de down e é exemplo de determinação na unidade de ensino



Carina Cardoso - 27/08/2021 10:18h



“Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”. A frase é do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, e define bem o trabalho de respeito à diversidade humana que é executado nas salas de aula das escolas da Rede Estadual. Nenhuma deficiência - seja ela física, visual, auditiva, intelectual, psicossocial ou múltipla - atrapalha a nossa educação. Aqui, nós aprendemos uns com os outros. Na educação pública de Pernambuco, o compromisso com a educação inclusiva é reiterado diariamente, pois cada indivíduo é de extrema importância para o processo de ensino e aprendizagem não só dentro da escola, mas em toda a sociedade. 

 

Matheus Vinícius, de 19 anos, tem síndrome de down e já sentiu muito com o preconceito e ignorância por conta da sua condição. O estudante da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Jornalista Trajano Chacon, situada no bairro do Cordeiro, Zona Oeste do Recife, carrega consigo um histórico de rejeição em salas de aula de escolas da rede privada da cidade. Segundo a sua tia, a enfermeira Simone Evangelista, Matheus não teve boas experiências em escolas particulares, o que dificultou a sua evolução. 

 

“Algumas escolas particulares não queriam aceitar a matrícula de Matheus por ele ter síndrome de down. Algumas davam desculpas, como a superlotação para ‘este público’, entre outras. Além disso, quando ele conseguia uma vaga, a gente percebia que ele não evoluia. Vivia triste, não queria ir para as aulas, e chegamos até a nos perguntar se valeria a pena o investimento, porque o retorno não existia”, detalha Simone. No início deste ano, a tia do rapaz o matriculou na EREM e, para a sua surpresa, a história está tendo um andamento positivo. 

 

“A gente (a família) tinha um certo preconceito com escola pública, pois achávamos que, custeando a educação dele numa instituição particular, ele ia ter um melhor suporte e qualidade de ensino. E hoje eu posso afirmar com propriedade que não é o investimento financeiro que vai fazer a escola abraçá-lo ou não, mas os profissionais que decidem humanizar esse atendimento. Aqui na Trajano Chacon os professores acolhem Matheus e se esforçam diariamente para incluí-lo na sala de aula com todos os outros alunos”, acrescentou a tia. 

 

Ainda segundo ela, Matheus está mais sociável, participativo nas atividades da escola, com autoestima melhor e com um objetivo em mente: entrar na universidade para ser médico veterinário. “Eu não sei muito bem como vai ser esse processo, sei que temos muito trabalho a fazer juntamente com a escola, mas estamos dispostos a ajudá-lo”. Para dar apoio ao estudante, que está concluindo o Ensino Médio na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), a avó Silvia Evangelista o acompanha nas idas à escola e vê de perto a evolução do neto. 

 

“Com a minha presença ele se sente mais seguro e a escola foi muito compreensiva em me deixar esperando para ele não voltar sozinho. Com Matheus eu estou recapitulando os assuntos das disciplinas, pois quando chegamos em casa, revisamos as aulas juntos. Agora, eu também penso em voltar a estudar e fazer o vestibular”, revela a avó. 

 

Rogério Lima é coordenador pedagógico da EREM e um grande influenciado por Matheus. Ele defende que o estudante não só aprende e evolui na escola, mas ensina e inspira seus colegas de turma e professores. “Matheus faz parte de uma turma de adultos, que por diversos motivos deixaram de estudar. Com todas as suas limitações, ele está na sala de aula todo santo dia, participa de todas as atividades e é aluno destaque da turma. Ele nos ensina que todos nós podemos conseguir qualquer coisa com esforço e dedicação. As limitações dele não dificultam as nossas aulas, muito pelo contrário; nos inspiram a seguir”, acrescenta o educador.

 


Enviar Mensagem

Voltar



Av. Afonso Olindense, 1513 | Várzea | Recife-PE |
CEP: 50.810-000 | Fone:(81) 3183.8203
Fale com a Ouvidoria 0800.286.8668